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Soja: Perspectivas Dioterápicas
Dr.
Daniel Magnoni, cardiologista e nutrólogo - Hospital do
Coração - SP. Presidente da Sociedade de Nutrição Parenteral
e Enteral - Sociedade Brasileira de Nutrição Clínica.
http://www.sbnpe.com.br
A soja, leguminosa cultivada há séculos por povos asiáticos,
notadamente os chineses, surge como importante nutriente
em meados do primeiro milênio DC. Somente no século XVIII
pesquisadores europeus iniciam estudos do feijão de soja,
como fonte de óleo e nutriente animal.
Nos relatos históricos observamos a utilização do feijão
de soja como lastro em navios americanos de volta aos
Estados Unidos. Gradativamente, grupos religiosos, adventistas
e outros segmentos protestantes, baseados em análises
do valor biológico da proteína de soja, disseminam a utilização
dessa leguminosa no cardápio diário de importante parcela
da população.
Atualmente o Japão consome quase que a metade da produção
mundial de soja. O cultivo da soja representa importante
atividade econômica nos Estados Unidos, cinquenta por
cento são importados para o Japão. No Brasil encontramos
cerca de trinta por cento da produção mundial, seguido
pela Argentina com dez por cento e demais países da América
do Sul e África.
A soja como nutriente possui aproveitamento dietoterápico
paralelo ao evoluir das técnicas de engenharia alimentar
e à incorporação de métodos economicamente viáveis na
extração do componente principal, a proteína isolada de
soja.
Evolução
Podemos caracterizar a evolução do aproveitamento do grão
de soja em quatro fases históricas e relacionadas diretamente
com a evolução dos costumes e hábitos nutricionais da
humanidade.
Constitui registro inicial a utilização do preparado doméstico
do "queijo de soja" e do "molho de soja", mundialmente
conhecidos como "tofu e shoyo".
No evoluir dos conhecimentos caracteriza-se a Segunda
fase como utilizando a farinha de soja e o leite de soja.
Extraídos de maceração, trituração e opcional adição de
água ao produto final.
A terceira fase incorpora técnicas de extração protéica
e desenvolve a proteína texturizada, componente básico
de inúmeros industrializados.
Modernamente caracterizamos a quarta fase como aquela
que alia as características nutricionais da proteína isolada
às particularidades de sabor, odor e aspectos visuais
de alimentos tradicionais. Como exemplos temos a proteína
de soja mesclada ao soro do leite de vaca. O sabor final
é extremamente semelhante ao leite, mas com enriquecimento
protéico devido à proteína isolada de soja.
O feijão de soja, manipulado e processado em escala industrial,
pode ser integralmente utilizado em nutrição.
Os produtos finais são: óleo de soja, carboidratos de
várias cadeias, resíduos e a proteína de soja. Esse último
componente representa quarenta e dois por cento do produto
final, demonstrando a forte participação de proteínas
nos subprodutos da soja.
A proteína pode ser extraída de vários modos na dependência
do avanço tecnológico e no interesse dietoterápico.
A farinha de soja, desengordurada ou não, possui participação
protéica de cinquenta por cento e pode ser utilizada na
indústria alimentícia, notadamente na panificação e no
preparo de alimentos liofilizados.
O concentrado protéico de soja, processado por extração
alcoólica na grande totalidade, preserva a participação
de carboidratos, exclui a presença de gorduras e possui
sessenta e cinco por cento de composição protéica. A sua
utilização na indústria alimentícia é amplamente difundida
como "fortificante protéico" e base nutricional de alimentos
liofilizados.
A proteína isolada de soja pode ser extraída do grão de
soja por processos químicos ou mecânicos. Envolve o uso
de temperatura, maceração e utilização de água ou álcool.
Na literatura encontram-se inúmeros trabalhos analisando
as características químicas do isolado protéico de soja
e relacionando-as à forma de extração protéica. Existem
evidências clínicas que a extração aquosa preserva as
isoflavonas, diretamente envolvidas com o fator de proteção
cardiovascular atribuído à soja.
A proteína isolada de soja possui peso seco de 90% de
proteína e está inserida na produção de compostos dietéticos
e dietoterápicos.
O consumo de alimentos preparados com esses compostos
pode ser dirigido especificamente à terapia nutricional
(Nutrição Enteral, nutrição oral especializada) ou a nutrição
popular (leites especiais, compostos nutricionais fortificados).
A classificação química de digestibilidade da proteína
de soja passa por duas grandes fases do conhecimento humano
em nutrição clínica.
Em 1919 criou-se o método da Relação de Eficiência Protéica(PER).
A indústria alimentícia utilizava esse método, inserindo
seus resultados nos rótulos, caracterizando, desta forma,
a porcentagem diária recomendada de proteínas.
A Relação de Eficiência Protéica (PER) foi calculada sobre
o requerimento protéico de ratos jovens em crescimento.
A distorção da amostra resultou na superestimação da qualidade
da proteína animal em detrimento da proteína vegetal.
As estimações da necessidade protéica de lactentes foram
adaptadas à realidade dos conhecimentos atuais. Entre
1949 e 1974 houve adaptações dessas necessidades com redução
dos valores preconizados a níveis até sessenta por cento
inferiores.
No entanto, paralelamente aos esforços de adequação de
tabelas, houve, por parte da Administração de Alimentos
e Fármacos (FDA), em 1993, a adaptação da classificação
de escore químico de aminoácidos corrigido por digestibilidade
(Protein Digestibility - Corrected Amino Acid Score -
PDCAAS). Desta forma foi criado o método ideal para calcular
a porcentagem do valor diário protéico.
O PDCAAS associa vários fatores nutricionais como: o perfil
de aminoácidos essenciais das proteínas, digestibilidade
destas e a participação percentual de aminoácidos relacionando-a
as necessidades humanas.
A comparação do perfil de aminoácidos de cada proteína
é baseada na necessidade protéica de crianças com cinco
anos de idade.
Os valores do PDCAAS variam de próximos a 0,1 a 1,0. O
valor 1,0 representa que 100% dos aminoácidos essenciais
necessários a uma criança de cinco anos está presente
na proteína em questão.
A proteína de carne bovina possui PDCAAS de 0,92 enquanto
a caseína e a proteína isolada de soja alcançam 1,0 e
a farinha de milho possui 0,52. Esses valores servem como
exemplos da renovação de conceitos em nutrição e de novos
enfoques em planejamentos estratégicos nutricional.
No aspecto clínico de nutriente relacionado à prevenção
e tratamento de patologias, podemos relacionar a atuação
da soja em algumas doenças: prevenção e tratamento de
osteoporose, prevenção a neoplasias, tratamento à síndrome
do climatério e tratamento de hipercolesterolemia como
prevenção à doença aterosclerótica.
A Soja na Nutrição Clínica
Dentre as aplicações clínicas da soja como prevenção a
várias patologias, reside na prevenção às doenças cardiovasculares
e às neoplasias a grande totalidade de trabalhos científicos
consagrados e amplamente difundidos.
No ano de 1995, Anderson e colaboradores realizaram meta
análise que efetivamente colocou em pauta o questionamento
da efetiva proteção cardiovascular de dietas enriquecidas
com soja.
Na meta análise relatada, trinta e oito trabalhos foram
analisados. O consumo de proteína de soja em troca pela
proteína animal, demonstrou que nos pacientes que utilizaram
essas dietas, o nível de colesterol total sofreu redução
significativa bem como os valores de LDL-colesterol e
VLDL-colesterol. Nestes estudos foram utilizados subprodutos
protéicos da soja (vinte estudos utilizaram proteína texturizada
e três uma combinação dos dois subprodutos). A ingestão
de proteína de soja dietética variou de 17 a 124 gramas
por dia.
Apesar da efetiva comprovação epidemiológica da proteção
cardiovascular da proteína de soja dietética, resta a
constatação da ação especifica nos mecanismos envolvidos
com a gênese da arteriosclerose.
Dentre os mecanismos propostos,
podemos relacionar alguns:
Aminograma: A relação arginina/lisina, maior
na soja em comparação com a caseína, promoveria alguma
ação protetora e de menor incremento na arteriosclerose.
Fibras: O polissacarídeo de soja poderia, em grandes
quantidades, estar relacionado com a hipocolesterolemia.
Ácido Fítico: O ácido fítico promove quelação
do ferro, cálcio, zinco e magnésio no trato gastro intestinal.
Dietas com alta relação Zinco/Cobre estão relacionadas
com hipercolesterolemia, deste modo com a ação quelante
do ácido fítico ocorreria déficit de Zinco e menor relação
Zinco/Cobre
Saponinas: As saponinas atuam no incremento
da eliminação de bile a nível intestinal.
Inibidores de Tripsina: Os inibidores de
tripsina, no caso específico da soja o chamado inibidor
de Bowman-Birk, estão relacionados com o incremento na
produção e eliminação da bile.
Globulinas de soja: As globulinas poderiam
estimular a captação de LDL-colesterol por receptores
hepáticos.
Isoflavonas: O grupo dos fitoquímicos possui
compostos classificados com fitoestrógenos, nesses existem
compostos como a genisteína, gliciteína, daidzeína etc.
que possuem efeito estrogênico. Os efeitos relacionados
a essa característica hormônio-like seriam observados
na maior captação hepática do LDL-colesterol, incremento
na elasticidade arterial e melhora do tônus vasomotor
arterial.
A atuação da soja na prevenção das neoplasias reside,
segundo inúmeras publicações cientificas, na atuação das
isoflavonas. Nos fitoestrógenos dos vegetais estaria a
relação protetora a patologias neoplásticas, a atuação
no ciclo mestrual, celularidade uterina e vaginal explica
a baixa prevalência de câncer ginecológico em populações
com consumo aumentado de soja.
A prevenção da osteoporose torna-se, nos dias de hoje,
importante atuação em ações de saúde. Dentre as proteínas
consumidas na alimentação humana, residiria na proteína
de soja um dos menores efeitos relacionados à excreção
urinária de cálcio. Paralela a esse efeito protetor à
osteoporose existe ainda a ação das isoflavonas da soja
na inibição da reabsorção óssea.
Por fim resta-nos avaliar à luz de mega trials e de trabalhos
prospectivos controlados a efetiva validação da soja como
nutriente específico e direcionado às ações de prevenção
a doenças.
Na engenharia de alimentos está reservada importante atuação
cientifica e social, promovendo ações técnicas direcionadas
à pesquisa básica ou incrementando a divulgação de resultados.
O conhecimento público de conceitos inovadores, seja na
medida do incremento às ações terapêuticas dos compostos
nutricionais, a exemplo da proteína isolada de soja, extraída
por método aquoso, e que preservaria os chamados efeitos
protetores às doenças.
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